19/01/2007

"Ministro Correia de Campos, p.f., não diga mais nada".



E, "num exercício desinteressado de cidadania e em nome da almejada vitória do Sim, abstenha-se de intervir na próxima campanha" do referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG).

O apelo é sui generis, mais a mais quando dirigido a um governante que desde cedo anunciou alinhar pelo "sim" na consulta de 11 de Fevereiro. Porque é oriundo de um grupo de "Cidadãos pelo SIM muito preocupados" com as intervenções de Correia de Campos. Mas acaba por ganhar algum sentido quando, no mesmo dia em que a petição que o difunde começou a circular na Internet, o próprio ministro foi interpelado no Parlamento por deputados comunistas sobre a mesma questão.

Em causa estão as sucessivas afirmações do governante, primeiro sobre as questões do anonimato impossível para as mulheres que recorrerem a hospitais públicos se a lei passar, depois sobre os custos da IVG despenalizada para o sistema de saúde, finalmente por aludir à criação de clínicas dedicadas ao aborto. "O Sr. ministro tem sido um desastre para quem quer a despenalização da IVG", insurgem-se os peticionários, corroborados pelo líder da bancada parlamentar do PCP. "Temos que assinalar que o ministro da Saúde, julgo que para vergonha do seu partido, funciona como um aliado objectivo da campanha do não", alertou ontem Bernardino Soares, numa alusão ao facto de Correia de Campos estar a falhar ao empenho do PS na campanha pela despenalização definido pelo secretário-geral do partido e primeiro-ministro, José Sócrates. Em vez de falar nos custos das IVG - que o ministro calculou em 300 euros, por extrapolação do exemplo espanhol -, o PCP sugere que se abordem os custos para a saúde pública "das complicações com que as mulheres chegam aos hospitais públicos"."A sua anunciada intervenção na campanha do referendo constitui um facto demasiado inquietante para quem pretende a despenalização da IVG", escrevem do seu lado os cidadãos da petição on-line, que já conta com algumas dezenas de assinaturas. "O senhor ministro tem-nos dado trabalho a dobrar. Cada vez que intervém temos que construir um novo argumento. Aproveitando uma frase do não... Sr. ministro, NÃO OBRIGADA!", comenta um dos signatários.

Acusações a que o ministro se absteve de responder na Assembleia da República, alegando que "o debate é aberto e organizado na sociedade". Quanto aos custos - "inflacionados desmesuradamente", diz a petição - assegurou que "o que o Ministério da Saúde fez foi informar em matérias de facto sobre os custos das intervenções".

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