24/04/2007

25 DE ABRIL SEMPRE








Comemora-se o 25 de Abril de 1974.




Por muito que se fale sobre esta data, pelo que de bom aconteceu aos portugueses, as actuações dos diversos governos, ao longo destes anos, não tem sido boa para os nossos concidadãos.




È bom que todos façamos uma reflexão e que repensemos a nossa forma de agir.




A minha homenagem aqueles que tornaram possivel a realidade do pós 25 de Abril é relembrar a actuação dos nossos militares na Póvoa de Varzim. Aqui fica o relato pela mão daqueles que estiveram na linha da frente. O MEU MUITO OBRIGADO A TODOS ELES.








1º GRUPO DE COMPANHIAS DE ADMINISTRAÇÃO MILITAR

A actuação do M.F.A. no 1º GCAM, surge, antes da intentona das Caldas da Raínha, através do contacto tido pelo Sr. Major Borges, do CICA 1, com o Sr. Capitão Gomes de Almeida, desta unidade, que superficialmente dá a entender ser necessária a intervenção da Unidade no Movimento perguntando mesmo qual o armamento e as forças de que dispunha.
Deste contacto o sr. Capitão Gomes de Almeida, dá conhecimento ao sr. Capitão Bacelar, o qual, até aí, assim como o Comando, pouco sabiam de concreto sobre o Movimento, além do conhecimento comum.



Na prevenção sequente da intentona das Caldas da Raínha, vive-se na Unidade um clima de efervescência, e de ignorância dos acontecimentos, só conhecidos através da BBC, pelo que o Sr. Capitão Gomes de Almeida procura saber o que se passa, através de um telefonema para o RI 14, com cujos camaradas, mantinha contactos e obtinha informações. Durante esta prevenção, tem-se oportunidade de seleccionar os oficiais da unidade, de forma a identifica-los com o MFA, tendo em vista o seu comportamento. Após esta intentona, fica-se com a impressão, de que ela seria o embrião da Revolução, e que esta estaria iminente.



Alguns dias são passados, quando o Sr. Capitão Gomes de Almeida é chamado ao CICA 1 para contactar com o Sr. Major Borges. Estando este ausente, é recebido pelos senhores Majores Corvacho e Albuquerque, e então se fala das possibilidades da intervenção da Unidade numa revolução armada. Na sequência deste contacto, há necessidade da intervenção do sr. Capitão Bacelar, oficial mais antigo na Unidade e conhecedor mais profundo das possibilidades desta, pelo que se marca uma segunda reunião, com a sua presença. Nessa reunião, preconiza-se qual a missão que desempenharia o 1º GCAM, admitindo-se as seguintes hipóteses:



1. – A ocupação do Aeroporto de Pedras Rubras e intercepção do tráfego na Via Norte.
2. – A manutenção do itinerário do Batalhão em IAO, que viria de Viana do Castelo.
3. – Um estado neutral.



Fez-se saber já nessa altura, que a primeira missão, não poderia ser executada, visto a unidade ser de instrução, com pouco pessoal apto, impossibilitada assim o êxito da mesma.
São os mesmos oficiais presentes numa terceira reunião, em que se fez o ajustamento da missão a executar, ficando assente que se cumpriria a segunda hipótese, anteriormente preconizada, e tendo como acções acessórias, a neutralização da PSP, GNR, GF, e LP da Póvoa de Varzim e Vila do Conde.



No dia 20 de Abril dá-se , a 4ª e última reunião , sendo então ultimados os planos de acção, com recomendações em pormenor, aí se informa que o alerta e o desencadeamento da acção, se processaria, a partir das 00H00, do dia 22 de Abril, e que o golpe se daria nas 72 horas seguintes. Fica assente também, que os planos de acção seriam transmitidos por estafetas devidamente identificados. Os contactos telefónicos, por que se sabia serem vigiados, seriam evitados, e feitos só para marcar horas de encontros, visto os locais estarem já previamente estabelecidos.



Tendo em vista, a prévia selecção feita aos elementos da unidade, os contactos efectuam-se, sabe-se que mesmo sem estes, os Furrieis da Companhia de Instrução e outros adeririam ao movimento. Assim em relação ao 1º Sargento Santos, aos oficiais, Aspirante Sampaio e Sá Costa, e aos Alferes Milicianos Deus Alves e Azevedo, foi definida a sua posição pessoal, perante uma possível revolta.



Com o passar dos dias 22, 23 e 24, julgam os dois capitães, que a revolução, foi adiada, baseados no conhecimento que tinham do prazo marcado. Tal não acontece, pois no dia 24 pelas 18 horas, o sr. Capitão Bacelar é convocado telefonicamente, para um encontro, num café local, onde um estafeta lhe entregou os planos. Na posse destes, comunica o facto ao sr. Capitão Almeida, após o que começam a preparar o pessoal necessário ao desempenho da missão, que do antecedente se conhecia, e que o plano recebido não alterou. Pernoitando o mesmo fora do aquartelamento foi necessário inventar um motivo de falta de disciplina, com o intuito de obrigar toda a Companhia de Instruendos do CSM, de Alimentação ( 1º Turno de 74 ), a vir ao recolher. Entretanto, são informados os Oficiais Milicianos, que em conversas havidas anteriormente deram certas garantias de aderirem ao MFA, que á noite haveria uma reunião na Unidade, para troca de impressões. Procurava-se, assim manter sempre a segurança absoluta.



Chegada a hora da eclosão do Movimento revolucionário, a acção da unidade passa a desencadear-se com a entrada do sr. Capitão Bacelar no aquartelamento, o qual desliga os telefones civis do 1º e 2º Comandantes.
Seguidamente reúnem-se todos os oficiais, presentes na unidade, os quais são postos a par, do que vai passar-se, das intenções do movimento, e a quem é posta a opção de colaborar ou não. Verifica-se a adesão de alguns, que já do antecedente se contava, e a prisão dos restantes, incluindo os de serviço. A Companhia CSM, presente no recolher, foi levada para uma sala de aula, alegando-se mau comportamento durante a formatura, e aí foi mantida até à altura de ser armada e de se iniciar o cumprimento da missão.



Entretanto é detido na unidade, sem indicação de quais os motivos de não saída, o Sargento da ronda. Aos oficiais aderentes, são dadas garantias de não culpabilidade, no caso do movimento não vingar, tendo-lhes sido entregues uma convocatória imediata no aquartelamento, em poder do Oficial de Dia.
Vivem-se na unidade momentos de expectativa. Entretanto, o pessoal retido é informado que, por ordem do Quartel General, se entra num estado de prevenção.
Um dos oficiais aderentes, controla as chamadas telefónicas; outro tenta a sintonização do rádio, de modo a ser possível captar os sinais que marcariam o inicio do movimento.
Nesta sequencia, o sr. Capitão Bacelar, ocupa-se dos instruendos do CSM. Estes estavam agitados, pela sua retenção, pelo que se procura que se distraiam com anedotas sendo-lhes seguidamente distribuídas mantas, e aconselhados a descansar.



Em dado momento, é recebido um telefonema da esquadra da PSP, solicitando informação sobre uma viatura militar, que se tornara suspeita na cidade, e é dada a informação que se tratava de exercícios, a nível de RMP, entretanto ficam os oficiais responsáveis, receosos, pois esta observação veio suscitar duvidas, quanto ao conhecimento pela PSP de algo, relativo ao movimento. Simultaneamente, é decidido não se fazer, convocatória de pessoal, para que não fosse notado qualquer movimento militar. Entretanto, o sr. Capitão Almeida, e o sr. Aspirante Sá Costa, ambos á paisana e numa viatura civil, fazem o reconhecimento dos locais de acção e Zonas sensíveis.



Após ouvidos os indicativos, que marcariam o desencadeamento da acção e o inicio das operações, procede-se ao fardamento dos oficiais ainda á paisana. Cerca das 02H00, apresenta-se na unidade o pessoal que, no exterior tomava parte no exercício de transmissões, e que é retido, para aproveitamento no cumprimento da missão, e bem assim para assegurar o funcionamento das transmissões.



A certa altura, o sr. Capitão Bacelar informa os instruendos, que há conhecimento de que sabotadores tentam naquela noite fazer uma operação, motivo pelo qual se encontra a Unidade de prevenção, e que no caso de o QG ordenar, a Companhia comandada pelo sr. Capitão Almeida, teria que defender a ponte de Vila do Conde e outros pontos sensíveis, contra uma possível sabotagem.
Pelas 02H30, quando se procede, ao armamento da força, e formação da coluna, esta fica composta pelo sr. Capitão Almeida, Sr. Alferes Miliciano Deus Alves, Sr. Aspirante Miliciano Sampaio, e os furriéis Fernandes, que estava de ronda á cidade, Pinheiro, que era o Comandante da Guarda, e Vaz, que tomava parte nos exercícios de transmissões no exterior, e toda a companhia do CSM.



Seguidamente, ( 03H30 ), sai parte da coluna, em direcção á ponte de Vila do Conde, evitando passar pelo posto da GNR e PSP. Após algum tempo, sai a segunda parte da coluna. Simultaneamente, é montada a segurança imediata da ponte, e passa a ser controlado todo o movimento sobre ela. Posteriormente, é colocada uma metrelhadora Browning, no morro do Mosteiro de Santa Clara, garantindo-se assim a segurança afastada.
Todo o pessoal vive ali momentos de inquietude. Sobre a ponte, ainda coberta pela bruma matinal, a sr. Capitão Almeida comanda as operações, o tráfego é interceptado, para inspecção, vai-se distribuindo tabaco e aguardente a todo o pessoal, para melhor se aguentar com o frio.






Mas sobre o movimento nada se sabia ainda, até que pelas 04H20, surge o primeiro comunicado, proclamado através do RCP, e que, por estafeta, é transmitido ao pessoal destacado nas suas posições. Era o sinal de que o movimento não tinha abortado.
Aguardava-se a qualquer momento que surgisse o Batalhão de Viana do Castelo. Eis que pelas 06H05 este chega á ponte; troca-se um abraço espontâneo entre o Capitão Almeida e o Major Comandante da Coluna. Naquele abraço, estava o poder da vitoria. Todo o pessoal entretanto, se apercebeu do que se estava a passar, pelo que se vivem momwenytos de efusiva alegria. Depois as forças destacadas retiraram das suas posições, passando pelas instalações da GNR, PSP, GF e LP.



Não foi possível devido a interferências no rádio (OP), ouvir qualquer mensagem, tendo sido durante as operações, a ligação mantida; no sentido do Porto, por um instruendo do CSM, no sentido de Viana do Castelo pelo sr. Aspirante Sá Costa, ambos circulando em viaturas particulares e á paisana, posteriormente por RACAL, que de inicio, não funcionou.
Pela manhã, é solicitada a comparência na unidade do senhor Major Mourão, 2º Comandante que adere ao movimento. Não se faz selecção á entrada de pessoal na unidade. À hora habitual, é presente o senhor Tenente Coronel Reis Pereira, comandante da unidade, que perante tal situação, aparentemente mal definida, tenta uma ligação telefónica para o QG, o que não consegue. Põe então a hipótese de aí se deslocar, do que desiste, e, finalmente , pelas 14 horas, faz uma reunião de oficiais e sargentos, em que comunica a sua posição de aderência ao MFA.







Movimento das Forças Armadas

1º Grupo de Companhias de Administração Militar

Relatório da Acção

1. – Cerca das 17:30 de 24 de Abril de 1974 houve conhecimento do desencadeamento da acção, através de contacto que em reunião anterior tinha sido combinado.
2. – Porque o pessoal necessário ao desempenho da missão, que do antecedente se conhecia e que o plano recebido não alterou, pernoitava fora do aquartelamento foram, por motivos inventados de falta de disciplina cortadas todas as dispensas de recolher e por isso obrigatória a presença de todo o pessoal ( C.S.M.-Alimentação) na unidade às 21H30.
3. – Foram informados os oficiais milicianos, que em conversas havidas anteriormente davam certas garantias de aderirem ao movimento, de que cerca das 10H30 de 24 haveria uma reunião para troca de impressões.

Garantiu-se assim segurança absoluta relativamente ao conhecimento do movimento.
4. – Tendo em consideração o exposto em 2 e 3 toda a acção da unidade passou a desenrolar-se como se segue:
2421H20 – Entrada no aquartelamento do Capitão Bacelar. São por este desligados os telefones civis do Comandante e 2º Comandante.
2421H25 – Reunião de todos os oficiais presentes na unidade ( Alferes Miliciano Deus Alves, Alferes Miliciano Azevedo, Aspirante Castilho, Aspirante Vieira, e Oficial de Dia Tenente Miliciano Pinho), que são postos a par do que vai passar-se, dar intenções do Movimento e a quem é posta a opção de colaborar ou não.
Verifica-se a adesão do senhor Alferes Miliciano Deus Alves e Alferes Miliciano Azevedo, oficiais com que do antecedente se contava.
2421H30 – Alegados motivos de mau comportamento durante o recolher os soldados instruendos do C.S.M. são levados para a sala de aula onde se mantiveram até á altura de serem armados e de se iniciar o cumprimento da missão.
O Sargento da Ronda é retido na unidade e não lhe sendo indicados quaisquer motivos de não saída.
São dadas garantias aos oficiais aderentes de não culpabilidade no caso do movimento não vingar. ( A todos os presentes é enregue um envelope com uma convocatória imediata no aquartelamento, convocatória que existe em poder do Oficial de Dia e que lhe é retirada. É dada indicação de que se entrou em estado de prevenção á ordem do Quartel General e que devem ser ocupados os postos.)
2422H00 – Entram no aquartelamento as Aspirantes Sampaio e Sá Costa com que do antecedente se contava e que aderem. Um dos Oficiais aderentes controla as chamadas telefónicas. Outro tenta a sintonização do rádio de modo a ser possível captar os sinais de inicio do movimento. Outro ocupa-se dos instruendos do C.S.M. a quem é dada posteriormente a informação de que se entrara numa situação de prevenção. Os oficiais não aderentes são desarmados e mantidos na sala dos oficiais sem possibilidades de contactos.
2422:15 – è recebido um telefonema da esquadra da PSP solicitando informação sobre uma viatura militar que se tornara suspeita na cidade. É dada informação de que se trata de exercícios de transmissões a nível da RMP.
2422H30 – Entra no aquartelamento o senhor Capitão Almeida.
2422H30 – è decidido não fazer a convocatória de qualquer pessoal uma vez que á PSP parecia tornar-se suspeito qualquer movimento de militares e ainda porque poder-se-ia alertar pessoal civil, tendo no entanto sido feito reconhecimento da cidade e do local da missão.
2422H55 – É ouvido o primeiro indicativo do desencadeamento da missão.
2500H25 – É ouvido o segundo indicativo do desencadeamento da acção e procede-se ao fardamento dos oficiais ainda á paisana.
2501H15 – Apresenta-se ao pessoal que no exterior tomava parte no exercício de transmissões e que é retido para aproveitamento no cumprimento da missão e para assegurar a funcionamento das transmissões.
2502H30 – Procede-se ao armamento da força e formação da coluna. Fica constituída a força pelo senhor Capitão Almeida, Alferes Miliciano Deus Alves, Aspirante Sampaio, Furriel de Ronda á cidade, Furriel Comandante da Guarda, Furriel que tomara parte no exercício de transmissões e 60 instruendos do C.S.M.
2503H00 – É encerrada a sala de oficiais onde ficam os oficiais não aderentes.
2503H30 – Sai a primeira parte da coluna em direcção á ponte de Vila do Conde evitando passar pelos postos da GNR e PSP.
2503H50 – Sai a segunda parte da coluna que teve de aguardar o regresso de uma viatura, viatura onde é montada uma metrelhadora Browning.
2503H50 – É montada a segurança próximo da ponte e passa a ser controlado todo o movimento sobre ela.
2504H10 – È montada a segurança afastada da ponte com a chegada da segunda coluna e colocação da metrelhadora pesada junto do Convento de Santa Clara.
2504H30 – É ouvida a proclamação do movimento no RCP e através de estafeta é comunicada ao pessoal destacado na ponte.
2506H05 – A ponte é atravessada pelas tropas de Viana do Castelo.
2506H30 – A força destacada retira da ponte e circula pela cidade passando junto das instalações da PSP, GNR, GF e LP. Não possível devido a interferências no rádio (OP), ouvir qualquer mensagem. A ligação foi mantida por um dos oficiais aderentes e por um instruendo do C.S.M. ambos á paisana e deslocando-se em carros particulares, e posteriormente por RACAL que de inicio não funcionou.
2508H00 – É presente na unidade o 2º Comandante que foi mandado chamar e que adere ao movimento.
2510H00 – É presente o Comandante que posto ante o problema não adere de imediato, tenta uma ligação pelo telefone, de que desiste, põe a hipótese de se deslocar ao Quartel General do que igualmente desiste e finalmente adere ao movimento pelas 14H00, quando faz uma reunião de oficiais e sargentos e comunica a sua posição.
5. – Não se verificou qualquer actuação por parte da PSP, GNR, e GF que não saíram das suas instalações, não criando por isso qualquer problema.

Um Oficial Delegado do MFA
José Emílio Gomes de Almeida
Capitão do S.A.M.

1 comentário:

José António Torres disse...

Não tinha conhecimento destes pormenores relativos á nossa cidade.Fico contente por também termos lutado pela liberdade!!!

Cumprimentos....