30/04/2007

Há 25 Anos a morte marcava encontro com o 1º de Maio


Na boca de Maria Emília, 78 anos vividos na Sé, Porto, os dentes contam-se pelos dedos. Por isso, esconde a cara e nega fotos. Mas ninguém lhe trava a língua "Ainda anda por aí muito fascista disfarçado de democrata". Há 25 anos, Maria Emília, "dez filhos paridos, com oito sobreviventes", assistiu, do alto da pedreira que é hoje mercado da Sé, a "uma desgraça que envergonha o 25 de Abril": 126 polícias do Corpo de Intervenção e outros à paisana, vindos de Lisboa, espalharam pânico, dor e morte na Baixa do Porto.

Em causa esteve a disputa por um lugar na avenida principal da cidade para comemorar o 1.º de Maio. Ainda hoje as duas centrais (UGT e CGPT-IN, no Porto representada pela União de Sindicatos) continuam a celebrar a data de costas voltadas. Aliados é, assim, apenas o nome de desunião (porque apenas serve a CGTP), se bem que ambas as centrais digam lutar pelo bem de quem trabalha.
Pedro Vieira e Mário Emílio Gonçalves teriam hoje, respectivamente, 49 e 42 anos, se duas balas, ambas de calibre 7,65 milímetros, não os tivessem tornados vítimas da negra noite de 30 de Abril de 1982. Pedro era delegado sindical da CGTP e empregado têxtil. Foi atingido nas costas. Mário, vendedor ambulante, um mero curioso, foi na cara que recebeu o tiro. Ambos são lembrados por placas de mármore branco colocadas nos locais onde tombaram na estação de S. Bento e na Rua de S. Sebastião, na Sé.

Além de Pedro e de Mário, cujos funerais tornaram o Porto, cinco dias depois dos confrontos, num mar de gente vinda de muitos lados, foram 58 os feridos contabilizados pelos hospitais de Santo António, no Porto, e de Vila Nova de Gaia. Seis tinham ferimentos causados por balas. Muitos faleceram entretanto. Poucos aceitam hoje falar, dando a cara, do que se passou. Restam os relatos, na época, dos jornais e o livro branco que a União dos Sindicatos do Porto (USP) publicou em 1983.

A história desta noite que entrou para a História é longa.Tão longa que ainda não acabou, apesar de existir um extenso relatório assinado por dois procuradores-gerais adjuntos, Francisco Sampaio e Nuno Salgado, no qual se culpam elementos do Corpo de Intervenção pelos acontecimentos, sobretudo por actuações sem ordem de quem comandava. Desconhece-se, porém, a quem pertenciam as mãos que dispararam. Sabe-se, apenas, que são de polícias. E que "usaram armas de fogo fora dos condicionalismos legais". Sabe-se, também, que a origem da noite trágica começou cerca de um ano antes, quando a USP requisitou ao Governo Civil do Porto, na altura nas mãos do coronel Rocha Pinto, a utilização das Praças do General Humberto Delgado e da Liberdade e da Avenida dos Aliados nos dias 30 de Abril e 1 de Maio de 1982. Só obteve resposta sete meses depois. Negativa. O governador civil informou a USP que tal intenção já tinha sido formulada pela UGT, em 27 de Abril de 1981, logo, recusava o requerimento aos elementos da CGTP. "Nasceu a tensão. Ninguém aceitava que o local onde a CGTP tradicionalmente comemorava o 1.º de Maio lhe fosse vedado", conta Palmira Peixoto, dirigente daquela central. Uma tensão que se arrastaria até à noite em que a morte saiu à rua. "Se não tivéssemos estado na Avenida naquele dia, nunca mais recuperaríamos o local", acrescenta. O desagrado pela situação revelado por alguns elementos da CGTP (com pedras e paus arremessados) esteve, diz o relatório, na base das primeiras cargas policiais.
Mas depois veio o descontrolo. De quem deveria controlar. Ninguém dos que apareceram à frente do Corpo de Intervenção, jornalistas incluídos, escapou a ameaças, a bastonadas, a insultos. Só pelas duas horas do dia 1 o sossego voltou à Baixa do Porto. E hoje, quando se pergunta a dirigentes das duas centrais se será possível pensar numa comemoração conjunta do Dia do Trabalhador, as respostas surpreendem. João Torres, coordenador da USP, não aceita a ideia da CGTP ter como "parceiro" quem "foi criado para dividir e fragilizar a capacidade de resistência e a luta dos trabalhadores".Alfredo Correia, coordenador regional do Norteda UGT, acredita que "tal será possível", até porque o país "está a voltar a uma fase pior do que antes do 25 de Abril".


In relatório da Procuradoria-Geral da República

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