14/06/2007

Blogues como viveiro de ideias e fontes inspiradoras para jornalistas

O Jornal de Noticias de hoje faz referencia aos blogs.
Pelo interesse aqui fica a reprodução do texto da autoria de Dina Margato.

Sucedem-se os casos em que pistas fornecidas por blogues se converteram em notícias. Em Portugal, as suspeitas à volta da licenciatura do primeiro-ministro José Sócrates nasceram num blog. Em França, foi uma página na net que tornou público que Cecilia Sarkozy, esposa do presidente francês, não tinha votado na segunda volta das eleições. Que papel têm hoje estes domínios da web na actividade jornalística?
Nem todos os blogues são fontes de informação, os de registo confessional não interessam à pesquisa jornalística. Manuel Pinto, bloguista e professor na área dos média da Universidade do Minho, diferencia "Há muitos tipo de blogues, desde lixo a sítios incontornáveis". Mas, "alguns blogues podem, sem dúvida, ser fontes para os jornalistas".Para o investigador, os blogues podem funcionar como "termómetros, ainda que subjectivos, de um micro-mundo". Vê em alguns deles, "vozes que não se fazem ouvir por outras vias. São fontes inspiradoras de assuntos a tratar, de leituras da actualidade". Paulo Querido, bloguista com obra publicada sobre internet, diz que tem dificuldade em aceitar a ideia de que a blogosfera está a influenciar o jornalismo. Prefere entendê-los "substitutos das cartas que antes chegavam pelo correio aos jornais" com histórias que podiam dar origem a notícias. "A novidade está no meio e na sua capacidade de rastilho". É nesse ponto que sublinha a importância de certos blogues para a actividade jornalística. "Não se pode comparar com o fax, por exemplo, nos blogues a informação propaga-se rapidamente". Classifica a blogosfera como um "meio conversacional", que, enquanto tal, transformou o espaço público. "São viveiros de ideias", afirma Paulo Querido. "A vantagem sobre a rua, a conversa do café, é , além da divulgação, o facto de os blogues serem feitos por pessoas mais educadas, já que são assegurados por pessoas com mais escolaridade".O bloguista reconhece que as páginas na net podem ser úteis para os jornalistas como fonte, são uma "ferramenta com vozes que podem ser lupa em relação ao que se passa", mas recusa o deslumbramento de poderem estar a fazer a pesquisa que devia ser tarefa dos jornalistas. O caso da revelação das suspeitas levantadas à licenciatura de José Sócrates prova, a seu ver, que a pressão dos blogues não é assim tão eficaz. "Foram precisos dois anos para que o bloguista pudesse ver a sua história chegar aos jornais", faz notar. "O assunto só ganhou dimensão com os jornais. Aliás, só assim é que o autor teve um dia de glória". Mariana Oliveira, autora da notícia "caso Charrua", defende que os blogues são "mais um meio" a que deve recorrer o jornalista, "nunca podem ser fonte única". No caso da história do professor que teria sido castigado por ter possivelmente insultado o primeiro-ministro, esclarece que a notícia do Público não nasceu dos blogues, ainda que tenha sido através deles, que, depois, ganhou "consistência". "Foi é multiplicada, depois, pelos blogues, também por ser uma notícia que suscitou muita opinião". Entende os blogues como reflexo das movimentações da sociedade civil que não devem ser descuradas pelos jornalistas. "Podem alertar os jornalistas". Ao jornalista cabe "perceber o interesse noticioso e averiguar". Não tem preconceito algum em relação à ajuda. "Os blogues dão um contributo. As informações devem é ser confirmadas como quaisquer outras". Considera que a "democracia só tem a ganhar quando melhor for auditada". Também para o professor universitário Manuel Pinto, os "blogues vieram alargar e enriquecer aquilo que até há uns anos se considerava ser o campo jornalístico". A radiografia que faz é esta "Digamos que hoje há muito mais vozes, muitas delas especialmente qualificadas em determinadas áreas", que fazem ou devem fazer parelha com os jornalistas, ainda que estes sejam "o núcleo duro e insubstituível do jornalismo". O professor não vê ainda nos blogues substitutos da investigação jornalística. Não concorda com a relação. "Outra coisa é a existência de um desinvestimento na investigação por parte dos jornalistas ou, melhor, das empresas jornalísticas". Mariana Oliveira traça um cenário desanimador. "Hoje em dia faz-se pouquíssima investigação. Os jornais são empresas que têm de dar lucro e a lógica empresarialista não se compadece com o risco e o tempo que a investigação implica". Concretiza "Um jornalista não pode garantir à partida que uma pesquisa dê uma boa história e os jornais não têm condições para lidar com essa incerteza".
Do caso Sócrates a Sarkozy
Em Portugal, nunca um eco de um blog se terá tanto feito sentir como na altura em que os jornais começaram a noticiar que existiam irregularidades na licenciatura de José Sócrates. Foi um blog que levantou a suspeita. O alarido nasceu no "Doportugalprofundo" e o seu autor, António Balbino Caldeira, de Alcobaça, é professor universitário. Para o caso, convém saber que António Balbino Caldeira é militante social-democrata (PSD), segundo diz a revista Atlântico, que fez mesmo capa com a história, que intitulou "O blogue que mordeu o primeiro-ministro". Mas foram precisos dois anos e uma conjuntura propícia, as suspeitas sobre a actividade na Universidade Independente, onde o primeiro-ministro estudou, para que a "história" do bloguista saltasse para a Imprensa, depois do primeiro passo dado pelo Público. Em França, foi também uma página na net de antigos jornalistas do Libération, que tornou público que a esposa do Presidente não tinha votado na segunda volta das eleições. O que foi ponto de partida para a notícia de que Sarkozy teria querido impedir que esse dado chegasse à imprensa. Certamente, a primeira dor de cabeça do novo presidente francês. Nos Estados Unidos, o jornalista veterano Dan Rather que noticiou o tratamento privilegiado que Georges W. Bush teria tido quando serviu a Guarda Nacional Área do Texas, teve o maior revés na sua longa carreira, segundo se descreveu na altura, graças à revelação de uma página na net. Um blog local insistiu na tese de que os documentos que serviram de base à notícia não eram autênticos. Daí até a novos desenvolvimentos sobre a notícia foi um ápice. Dan Rather veio, então, a público desmentir a notícia.
Conceito de blog
É um diminutivo de weblog, página na internet, cuja organização funciona com a lógica de um diário, já que as actualizações vão-se fazendo de forma cronológica. Um blog típico inclui texto, imagem e vídeo.
História do blog
Existe mais do que uma teoria sobre o seu passado. Parece ser ponto assente que Jorn Barger deu um importante contributo, por ter sido editor de um espaço na internet que chamou "weblog", em 1997. O seu blog foi definido como uma página de diário que relatava todas as outras páginas interessantes que encontrava. O termo foi alterado por Peter Merholz, que decidiu pronunciar "wee-blog", o que tornou inevitável o encurtamento da palavra.

1 comentário:

Marx disse...

Post, como o tema, muito interessante. Claro que, neste tandem bloggers/jornalistas, é necessária a existência dos últimos. Pelo que grande parte do que o JN relata, no que à Póvoa diz respeito, não tem qualquer espécie de aderência. Como todos sabemos.