24/06/2007

Novas revelações: Rumsfeld sabia dos abusos em Abu Ghraib muito antes de explodir o escândalo


Esta semana explodiu outro escândalo em Washington sobre quem sabia o quê e quando de um dos episódios mais atrozes da invasão norte-americana do Iraque: o caso da tortura dos presos de Abu Ghraib. O famoso jornalista Seymour Hersh entrevistou pela primeira vez o general encarregado da investigação do abuso na prisão sob comando americano no Iraque, que lhe revelou que ainda não foram tornadas públicas as piores imagens da tortura de Abu Ghraib, que os altos comandos tinham conhecimento desta situação cinco meses antes de o então Secretário de Defesa Donald Rumsfeld testemunhar diante do Congresso que acabara de tomar conhecimento do caso, e que o general foi isolado e finalmente obrigado a retirar-se do serviço activo devido ao relatório que fez sobre o assunto.

Por David Brooks, La Jornada, 19/6/2007

Hersh, numa reportagem publicada na New Yorker, relata que em meados de Janeiro de 2004 o comando militar já sabia da existência de mais de 100 imagens de abuso e de tortura em Abu Ghraib, e tinha pelo menos descrições do conteúdo dessas imagens. No entanto, em Maio, ao testemunhar diante do Congresso, Rumsfeld e oficiais do alto comando afirmaram que nunca tinham visto as imagens até à noite anterior da sua apresentação aos congressistas.

Uma semana antes, Hersh, na New Yorker, e a CBS News tinham difundido algumas das descrições e imagens do abuso, obrigando a Casa Branca a responder que era um caso de actividades ilegais de um pequeno grupo de soldados, que os Estados Unidos não torturavam e que foi o próprio Exército que descobriu e investigou o abuso.

O general Antonio Taguba, encarregado da investigação oficial (com severos limites), disse a Hersh que desde Janeiro que circulavam e-mails com descrições do ocorrido entre os generais encarregados da guerra, e no próprio Comando Central, assim como em altas esferas do Pentágono, inclusive no próprio gabinete do secretário de Defesa. Mas, ao reunir pela primeira vez com Rumsfeld e o seu então adjunto, Paul Wolfowitz, e membros do Estado-Maior, no dia anterior ao da apresentação no Congresso, todos disseram que não tinham visto os detalhes nem as imagens dos abusos.

Taguba informou que algumas das piores imagens ainda não foram difundidas, como uma em que um polícia militar dos EUA sodomiza uma prisioneira iraquiana. Taguba começou a sua investigação em Janeiro de 2004, e entregou o seu relatório em Março, onde concluiu, entre outras coisas, que "numerosos actos de abuso criminoso sádico, flagrante e desenfreado foram infligidos a vários presos", e que se tratou de "um abuso sistemático e ilegal". Mas, apesar de ter entregado mais de uma dezena de cópias do relatório a altos oficiais em Março, os homens do presidente Bush pretenderam jamais tê-lo visto até meados de Maio.

Tudo indica, diz Hersh, que houve algum tipo de encobrimento ao mais alto nível do governo de Bush - incluído o próprio presidente - , sobre quem, quando e quanto se sabia dos abusos. O facto de depois de apresentar o seu relatório, Taguba ter recebido ordens para ocupar um posto marginal dentro da burocracia, e que no final foi obrigado a renunciar, em Janeiro deste ano, demonstra que o seu trabalho não foi bem vindo.

Hoje, o editorial do jornal USA Today opina que "os comentários de Taguba recordam que o escândalo ainda carece de uma investigação a fundo, que poderia explicar como os abusos não só ocorreram em Abu Ghraib, como também no Afeganistão e na Baía de Guantánamo, Cuba, e se não são culpadas pessoas de patente mais alta."

Hersh questiona a possibilidade de que Rumsfeld e o seu chefe, o presidente George W. Bush, não tivessem conhecimento do que ocorreu. Isso implica que de facto sabiam e de alguma maneira permitiram a tortura.

O artigo de Hersh provocou uma resposta da Casa Branca que insistiu na linha oficial de que o presidente tinha sabido do caso pela televisão e que ordenou uma investigação a fundo.

Mas, nesta altura, a credibilidade do presidente e de pessoas como Rumsfeld e Wolfowitz é quase nula. A saída em desgraça de Rumsfeld, e agora de WolfoWitz do seu cargo de presidente do Banco Mundial, e a condenação - se não houver um indulto presidencial - de Lewis Libby, o braço direito do vice-presidente Dick Cheney, são em grande medida custos políticos desta guerra, assim como a derrota do Partido Republicano nas passadas eleições legislativas.

Também há outro tipo de custos nesta aventura bélica. Além dos mais de 3 mil soldados mortos, mais de 22 mil feridos, também se calcula que uma quarta parte dos militares que regressam do Iraque padecem de problemas mentais, relatou o Washington Post. O Pentágono procura contratar mais centenas de psiquiatras e de psicólogos para tratar destes pacientes.

Os veteranos dessas zonas de guerra que procuraram apoio para enfrentar o chamado "stress pós-traumático" ascendem a 45 mil; para os especialistas, isto é só o início de uma onda de veteranos que vão regressar com problemas mentais, acrescenta o Post. O próprio Exército descobriu que 20% dos seus soldados no Iraque padecem de problemas psicológicos de ansiedade, depressão e stress agudo.

Os custos económicos da guerra em casa também têm várias dimensões. Nos termos mais amplos, pode-se registar que a despesa pública de fundos já supera os 500 mil milhões de dólares. Um relatório recente do Instituto de Investigações de Paz Internacional de Estocolmo calculou que o custo total da guerra do Iraque, se se incluírem os custos desde o início e futuros projectados até 2016, chegará aos 2,3 triliões de dólares.

A aventura bélica de Bush custa cada vez mais aos norte-americanos.

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