17/08/2007

RISCO DE LEUCEMIA E TUMORES



O relatório do grupo de trabalho nomeado pelo Governo para avaliar a exposição da população aos campos electromagnéticos revela que existem riscos para a saúde. O documento, que critica a falta de informação sobre a matéria, foi concluído em 2003 mas só agora publicado no site da Direcção-Geral da Saúde e editado em papel. Antenas de telemóvel, de rádio e de televisão, radares de aeroportos ou linhas de distribuição de electricidade estão entre as principais fontes de emissão de radiações. Os malefícios dependem da intensidade e do tempo de exposição.

Evitando alarmismos, os técnicos nomeados pelo Governo admitem haver consequências para a saúde das populações, como o surgimento de cancros. “É considerado como possível que uma intensa exposição aos campos electromagnéticos nas habitações possa aumentar ligeiramente os riscos de leucemia infantil e que esta exposição nos locais de trabalho possa aumentar ligeiramente os riscos de leucemia e tumores cerebrais em adultos”, lê-se. Apesar de os especialistas, liderados pelo chefe de divisão de Saúde Ambiental da DGS, António Tavares, sublinharem que tais efeitos apenas se reflectem com radiações “de uma intensidade suficientemente elevada para produzir efeitos térmicos”, destacam a dificuldade em avaliar concretamente estes efeitos. Susana Fonseca, vice-presidente da Quercus, entende que o relatório “tem uma perspectiva interessante” mas lamenta “só ter sido divulgado três anos e meio após a elaboração”. “Numa perspectiva técnica, quando há poucas evidências existe a tendência para concluir que também não existem riscos, mas este trabalho evidencia que, apesar de as relações serem ténues, é necessário tomar precauções”, afirma. A iluminação eléctrica, muitos dos pequenos electrodomésticos que fazem parte do quotidiano, a internet sem fios, os ecrãs dos computadores, os telemóveis, ou até os sistemas de protecção usados em instituições públicas, aeroportos ou estabelecimentos comerciais, sujeitam os portugueses a uma exposição permanente. É o próprio relatório que o destaca: as radiações electromagnéticas “são omnipresentes”, pelo que “não existe risco zero”. Apoiando-se noutros estudos, o grupo sublinha que “a exposição crónica a campos de radiofrequências (...) pode conduzir à libertação de cálcio no sistema nervoso”, provocando perturbação das emoções, da memória e do sono. “Esta área é de investigação prioritária”, defendem os técnicos. Para o grupo de trabalho, o surgimento de estudos com novos resultados “conduzirá à inadequação dos actuais valores-limite” de radiação. Os especialistas lembram que a definição de limites é demasiado geral, misturando a população com grupos de maior risco como adolescentes e profissionais que têm maior contacto com as fontes de emissão. Entre outros aspectos, o relatório sugere a sinalização junto às estações de radiocomunicações.
MEDIÇÕES CONSTANTES
A Rede Eléctrica Nacional (REN) garantiu ao CM que faz medições regulares dos valores de campo eléctrico-magnético em novos projectos e nas infra- -estrutras existentes. A REN diz que as “intensidades dos campos eléctricos e magnéticos são sempre bastante inferiores aos níveis de referência recomendados pela exposição humana em permanência”. Os valores são definidos por recomendação do Conselho Europeu e da Organização Mundial de Saúde.
MORTES MISTERIOSAS AGITAM POPULAÇÃO DE SÃO MARCO
Numa pequena rua da Encosta de São Marcos, freguesia do concelho de Sintra, por onde passa uma linha eléctrica de 60 kw (quilowatts), existem 14 casos de pessoas que morreram de cancro e outros 12 que sofrem da doença, de acordo com informações do Movimento Cívico pela passagem subterrânea das Linhas de Alta Tensão em zonas urbanas. Os moradores temem que o elevado número de casos para uma população que não excede as cem pessoas esteja relacionado com a passagem dos cabos eléctricos. Temem que com a abertura, em Abril, da linha Fanhões-Trajouce, de 220 kw, mais pessoas possam vir a sofrer de doenças oncológicas. A Rede Eléctrica Nacional (REN) rejeita tal relação. E esclarece: “Continua a não ser possível encontrar qualquer relação significativa entre a exposição aos campos electromagnéticos de muito baixa frequência, como é o caso dos associados à utilização da energia eléctrica, e a ocorrência de problemas na saúde dos seres vivos.” O receio da população de São Marcos é partilhado pela presidente da Junta de Freguesia de Monte Abraão, Fátima Campos, que afirma “lutar até às últimas consequências, ou seja, até ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, caso a REN não desactive a linha”. A autarca obteve em Junho último a sua primeira vitória com a decisão do Tribunal Central Administrativo do Sul que ordenou a suspensão do transporte de energia na referida ligação, invocando que a população pode ser lesada na saúde, património e qualidade de vida. A REN não acatou, porém, a decisão, alegando que o corte poria em risco o fornecimento de energia a 300 mil clientes.
NOTAS SOLTAS CRIANÇAS
Segundo o relatório, as crianças e adolescentes são mais vulneráveis aos efeitos das radiações do que os adultos. Os estudos mostram que a absorção de radiação é superior numa cabeça mais pequena, ao mesmo tempo que penetra mais facilmente numa caixa craniana mais fina.
PREOCUPAÇÃO
Até à década de 60, a maior preocupação das populações era estética. Hoje as pessoas receiam as linhas de transporte de electricidade, as antenas de telemóveis e os radares. Temem que os telemóveis causem cancro ou que o seu uso afecte o desenvolvimento de crianças em idade escolar.
DIVULGAÇÃO
O relatório do grupo de trabalho nomeado pelo Governo foi concluído em Abril de 2003. Segundo a Direcção-Geral da Saúde, o trabalho só agora – três anos depois – é editado em papel e divulgado no seu site, pois, por motivos financeiros, ainda não tinha sido possível fazer a sua publicação.
EXEMPLOS DE FONTES DE EMISSÃO
ALTA: radares meteorológicos, radares de aeroportos, emissores de rádio e TV e microondas.
POTÊNCIA ELEVADA
Os emissores de rádio e televisão, os radares de vigilância, de orientação e controlo do tráfego aéreo, tal como os usados para as previsões meteorológicas, são fontes de emissão de radiações de alta potência. O microondas, no seu interior, também emite este tipo de radiações.
BAIXA:
radares portáteis da polícia, telemóveis e telecomandos.
MENOR POTÊNCIA
Além destes três utensílios que estão já inseridos no dia-a-dia, também os ‘walkie-talkies’ e os telefones sem fios estão incluídos no grupo. Aliás, segundo os técnicos responsáveis pelo relatório, as radiações electromagnéticas são hoje “omnipresentes”.
NOTAS
VATICANO CONDENADO
Dirigentes da Rádio Vaticano, em Roma, foram condenados, em Maio, a dez dias de prisão. As radiações das antenas da estação causaram leucemia em crianças.
SILVES CONTESTA
A população de Silves contesta o traçado proposto pela REN para a linha de alta tensão entre Portimão e Tunes, numa extensão de 40 quilómetros.
CASOS EM ESPANHA
Alunos de uma escola primária de Valladolid, Espanha, foram submetidos a exames médicos em 2002 depois do aparecimento de quatro casos de cancro.

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