14/01/2008

Monsanto é a Guantánamo de Portugal


Os abusos na prisão de Monsanto são muitos, tantos quantas as denúncias que Jaime Giménez Arbe, mais conhecido por El Solitario, fez ao jornalista espanhol Matias Antolín e que são hoje publicadas nos 14 jornais espanhóis onde o repórter escreve, cujos excertos o DN teve acesso. "[A prisão de] Monsanto é a Guantánamo de Portugal. Aqui não se respeitam os direitos humanos", conta o homem que durante anos foi o mais procurado em Espanha, preparando-se para apresentar queixa contra o Estado português por maus tratos. Jaime falou, Matias escreveu. Dizem fontes directamente ligadas ao processo que as coisas se passam assim mesmo, obscuras e cruas. "O conceito de segurança máxima significa, na prática, o sequestro e a incomunicação; permite-se aos guardas prisionais qualquer tipo de tratamento vexatório, chegando a bater impunemente nos prisioneiros", relata. Jaime e os outros presos sobrevivem fechados 23 horas por dia, com direito a apenas uma hora de pátio: um espaço exíguo gradeado por cima, a que chamam "gaiola de pássaros". Não podem usar a Internet, tocar um instrumento musical, estudar ou ouvir música. "Lêem-te clandestinamente a correspondência e abrem as tuas cartas, chegando a apropriar-se do dinheiro que algum familiar tenha metido no envelope." Também as chamadas telefónicas, contou El Solitario, são "toda uma quimera", uma vez que só autorizam dois telefonemas de cinco minutos por semana, "que não dão para nada", e mesmo assim só a "familiares previamente comprovados e fiscalizados pela direcção da prisão"."Obrigam-nos a despir" É proibido falar com amigos ou receber telefonemas. "Quando querem anular-nos psicologicamente obrigam-nos a despir e chegam, inclusive, a tocar-nos nas partes nobres", denuncia. Nenhum tem forma de protestar ou insurgir-se. Nem mesmo as comissões de direitos humanos que visitam Monsanto têm autorização para falar com os prisioneiros, apanhados nas malhas do estabelecimento que se tornou de alta segurança em Maio de 2007, preparado para receber terroristas e presos perigosos. Com a grande reportagem de Matias Antolín a prometer incendiar hoje os media espanhóis, Jaime espera que o trabalho ajude a perceber o facto de haver ainda demasiados contornos indefinidos em todo o processo: são-lhe imputados 36 assaltos, mas na verdade apenas está a ser acusado de quatro processos efectivos de roubo em Espanha e em Portugal, responde por detenção de arma e munições proibidas, falsificação de documentos, roubo na forma tentada e resistência. Quanto às acusações de homicídio, El Solitario continua a negar a autoria das mortes dos guardas civis José António Vidal e Juan António Palmero, em Junho de 2004. "Juro pelo que há de mais sagrado que não os matei", defende-se. O El Mundo avançou já a tese de poder ter sido a mafia de Marselha a perpetrar tais crimes, mas certo é que, enquanto a verdade não é apurada, são muitas as acusações não confirmadas a quebrar a presunção de inocência de Jaime. Este parte para Espanha no início da semana, dado ter audiência marcada com o juiz de Tudela na próxima quinta-feira, dia 17. Fica depois detido na prisão de Pamplona durante dois meses.

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