12/02/2008

MAIS UMA VITIMA




Caiu a segunda vítima do complicado processo de reformas na Saúde Luís Cunha Ribeiro foi afastado da presidência do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), um organismo que tem estado debaixo de fogo não só pela complicada relação com os bombeiros, como por notícias de alegadas falhas na assistência pré-hospitalar. Falhas que se juntaram à onda de encerramentos de serviços de urgência hospitalar e de atendimento nocturno em centros de saúde encetada pelo anterior ministro da Saúde, demitido há 15 dias. A que se somaram ainda críticas da Ordem dos Médicos por oferecer socorro aéreo em helicópteros sem médico. "Tinha posto o meu lugar à disposição, por uma questão de ética, porque mudou o ministro da Saúde. E a nova ministra aceitou", limitou-se a confirmar, ontem Luís Cunha Ribeiro. Do Ministério da Saúde, a versão é a mesma, sem pormenores a explicar a decisão de Ana Jorge. Uma decisão que foi já acolhida como positiva pela Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP). O culminar da guerra que opunha o INEM aos bombeiros foi a divulgação, há três semanas, de um telefonema entre o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) e duas corporações de bombeiros da região de Alijó. Na chamada ficava clara a falta de entendimento entre a pessoa que ligou para o 112 e a operadora do instituto, bem como a falta de meios dos bombeiros para acudir à emergência - ocorreu durante a noite, numa altura em que, quer em Alijó, quer em Favaios, só havia um bombeiro de piquete, o que impossibilitava a saída das ambulâncias INEM estacionadas naqueles quartéis. Isto num altura em que a LBP tinha vindo a queixar-se da falta de apoios financeiros e de formação e a acusar o INEM de querer criar uma rede paralela de socorro hospitalar e dispensar os bombeiros, além de gastar três vezes mais com viaturas e tripulações próprias do que aquilo que paga por ambulância às corporações de voluntários. À frente do Instituto, o médico foi responsável pela ampliação da rede de Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação. E foi uma das primeiras vozes a defender a profissionalização das equipas de socorro dos bombeiros. A demissão de Cunha Ribeiro é, por isso, bem recebida pelo presidente da LBP, Duarte Caldeira, que alerta contudo para a necessidade de outras mudanças no INEM. "O Instituto precisa de entrar num novo ciclo da sua vida e isso não pode passar apenas pela saída do presidente. Há outras reformas a fazer e porventura outras pessoas que é preciso mudar". O ataque dirige-se essencialmente aos serviços médicos do INEM, que necessitam, diz Duarte Caldeira, de uma "profunda reestruturação". Mas também a outras direcções de serviços. "A cena lamentável da divulgação da gravação do telefonema no caso de Alijó só pode ter saído do INEM e o CODU depende do director de serviços e não do presidente do instituto".
O erro de Cunha Ribeiro terá sido, para Duarte Caldeira, o de querer construir uma imagem de "auto-suficiência" conferindo ao INEM "exclusividade" no socorro pré-hospitalar. A política era "secar tudo à volta". O líder dos bombeiros garante ainda que não se trata, aqui, de penalizar o elo mais fraco de uma política governamental. "O INEM caracteriza-se por uma enorme margem de manobra e muito do que é atitude e intervenção resulta daquilo que os seus dirigentes definem, independentemente das orientações políticas superiores". Além de que, se saiu o ministro, diz Duarte Caldeira, é "óbvio e normal que saia também o executor das concepções políticas".
É aos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) que cabe receber os pedidos de socorro na área da saúde. Instalados em quatro centros (Lisboa, Porto, Coimbra e Algarve), são as suas equipas, compostas também por médicos, que, pelo telefone, fazem o atendimento e a triagem dos casos e decidem quais os meios de socorro que devem ser enviados. Os CODU são, assim, responsáveis pela coordenação e gestão dos meios de socorro (incluindo ambulâncias, viaturas médicas e helicópteros), que são seleccionados com base na situação clínica das vítimas. Instaladas tanto no próprio INEM como em corpos de bombeiros, as ambulâncias de socorro são a base da emergência médica, equipadas para estabilizar e transportar doentes e com uma tripulação capaz de aplicar medidas de Suporte Básico de Vida. A estas juntam-se ainda ambulâncias mais apetrechadas - destinadas ao Suporte Imediato de Vida - e capazes de prestar cuidados mais avançados, designadamente manobras de reanimação. A sua tripulação é constituída por um enfermeiro e por um técnico de ambulância de emergência.
A Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) transporta uma equipa médica directamente ao local onde se encontra o doente. A bordo segue equipamento de Suporte Avançado de Vida. Estas equipas estão estacionadas em alguns hospitais e apenas intervêm quando accionadas pelos CODU. Cabe-lhes estabilizar o doente e acompanhar o transporte até ao hospital. Dois helicópteros, estacionados em Tires e Matosinhos, completam a rede de emergência. Equipados com material de Suporte Avançado de Vida, são tripulados por um médico, um enfermeiro e dois pilotos.

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