06/02/2008

SISTEMA POLITICO


Joaquim Jorge, Biólogo


O sistema político está esgotado e a crise vai acentuar-se com as novas leis para as eleições autárquicas e legislativas. A vida interna dos partidos tem que ser alterada e não pode estar à mercê de pagamento de quotas; procedimentos eleitorais; formas de militância; listas; sindicatos de voto; democracia interna; tráfico de influências; promiscuidades várias. Que moral tem um candidato de um partido para falar de democracia se não a pratica e não dá o exemplo? As eleições internas de um partido deveriam reger-se pela lei vigente (com as devidas adaptações) para as eleições de âmbito nacional ou local. Existe um proselitismo excessivo. Para o Parlamento não concorre quem quer, mas quem é escolhido pelas estruturas partidárias dominadas pelo "chefe" (que está lá, na altura). O mérito, a cultura, os conhecimentos e as provas dadas não são para ali chamados. O que conta é a fidelidade ao chefe; disciplina partidária; seguidismo, bajulamento, silêncios comprometedores, etc. A responsabilidade é exclusiva dos partidos e seus "chefes", dos deputados e seus dirigentes, ajudados por um sistema eleitoral medonho, por leis e regimentos de protecção de privilégios. O país está cansado dos mesmos políticos e eles não têm ou não querem ter consciência disso. Não é alterando as leis eleitorais que se renova a democracia, quer local, quer nacional. As pessoas querem caras novas e a alternativa é renovar os rostos daqueles que estão à frente de projectos políticos. A proposta da nova lei eleitoral para as legislativas não consagra candidaturas independentes e dificulta a vida aos pequenos partidos. Prova a lógica de controlo dos "senhores dos partidos" para a escolha de deputados. Num sistema político sadio é salutar existir críticas e contraditório, fomentando a alternância e as alternativas. E não serem sempre os mesmos. A candidatura de Manuel Alegre, o fenómeno de independentes e o aparecimento de clubes de reflexão provam que existe vida para além dos partidos. Querem controlar na secretaria (nos corredores do poder) esta efervescência dos cidadãos porque não estão a conquistá-los na sociedade. Não sei se em Portugal haverá espaço para mais partidos, mas gostava de que eles funcionassem de outra maneira nova geração de dirigentes; renovação de ideias; serem atractivos; alterar a sua organização; dispostos a responder prêt-a-porter; sem crises de identidade; um projecto descentralizador; nova doutrina com novas propostas. A sensação depressiva e confusa que transmitem, sendo terrivelmente hierárquicos, mais parecendo tropa, miméticos, com tendência nepótica e despótica. Os partidos precisam de listas abertas e pensamento diversificado. A indigência e a trivialidade da classe política, pelo pensamento único, querendo dotar o Estado de uma estrutura monocrática de poder com o monopólio da verdade, das virtudes e das acções políticas. A desvergonha pessoal da fobia na carreira e dos happenings para lá chegar é o triunfo da desmoralização da causa pública. O êxito de uma democracia é ter cidadãos bem informados, activos e dispostos a debater e argumentar. É necessário combater a retórica de dizer uma coisa e fazer outra, aquilo a que eu chamo a inflação verbal e comportamental. É necessária uma verdadeira reforma moral na forma de se fazer política, sem párias, parasitas, privilegiados, proscritos, humilhados e disfarçados. A culpa é nossa; devíamos ser um povo mais culto e ter cuidado nas escolhas que fazemos quer nos partidos quer no Governo, e o grau de exigência fosse o devido e não o mal menor. Os políticos têm medo do que não controlam e do que não percebem. Algo que se faça com maturidade e consistência sem o trabalho da tecnocracia partidária mete-lhes muita confusão. A inveja é um mal endémico da sociedade portuguesa, de quem faz algo.

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