19/04/2008

Faleceu cónego Melo


O cónego Eduardo Melo Peixoto morreu hoje em Fátima aos 80 anos. Atingiu notoriedade no período mais conturbado do pós-25 de Abril de 1974 ao manifestar-se contra o movimento político comunista. Monsenhor Eduardo Melo Peixoto faleceu, poucos dias antes de presidir a um Congresso Internacional de Turismo Religioso, na Póvoa de Varzim, onde seria vendido o livro de memórias que acabara de publicar. O Cónego Melo foi encontrado, ao começo da manhã de hoje, sem vida no quarto onde pernoitava numa instituição católica em Fátima. Segundo fonte da Arquidiocese, o seu corpo será transladado, ainda hoje, para uma igreja da cidade, provavelmente para a Sé, onde será velado em câmara ardente. O Congresso de turismo religioso, organizado pela cooperativa Turel de Braga a que presidia, era, apenas, uma das inúmeras actividades em que continuou envolvido, desde que deixou o cargo de Deão do Cabido da Sé, no começo do século.

Acusado de envolvimento na morte do padre Max


Na década de 80 do século passado, num processo que se prolongou no tempo, viveu momentos difíceis com a acusação de que foi alvo, mas que sempre negou e nunca foi provada, de envolvimento na morte do padre Max, um sacerdote de extrema-esquerda de Vila Real, morto em 1976 em circunstâncias nunca esclarecidas. No processo judicial não foi sequer pronunciado para julgamento, em Vila Real, tendo os arguidos sido todos absolvidos no julgamento. A sua actividade recente passava, nomeadamente, pela presidência da Confraria de Nossa Senhora do Sameiro, e da Irmandade de São Bento da Porta Aberta, pelos cursos de Cristandade, pelo ISAVE - Instituto Superior do Vale do Ave e pela presidência do Conselho Geral do Sporting de Braga. Considerado o padre mais influente e mediático da diocese de Braga, de que foi Vigário-geral e Deão do Cabido da Sé, foi alvo de dezenas de homenagens na cidade, a última das quais para comemorar os cinquenta anos de sacerdócio e que juntou mais de mil pessoas.

Luta contra o comunismo


Para além dos muros da "cidade dos Arcebispos", ficou conhecido no país, durante o chamado verão quente de 1975, por ter protagonizado a luta da Igreja de Braga contra a tentativa do PCP de implantar o comunismo em Portugal. Neste capítulo, terá tido ligações com o MDLP- Movimento Democrático de Libertação de Portugal, ligado ao então general António de Spínola, cujos membros terá escondido num seminário de Braga, onde foram apanhados pelo Copcon, um organismo do MFA, Movimento das Forças Armadas.
Filho de um industrial bracarense, Eduardo de Melo Peixoto nasceu na freguesia de São Lázaro, Braga, a 30 de Outubro de 1927. Entrou para o seminário de Nossa Senhora da Conceição em 1939, recebeu a ordenação sacerdotal a 08 de Julho de 1951 e cantou a sua Primeira Missa em S. Lázaro a 15 de Julho. Oito anos mais tarde, embarcou como capelão militar do Batalhão da Extremadura para a Índia portuguesa, donde regressou em 1961. Em 1968, matriculou-se na Faculdade de Direito Canónico de Salamanca, Espanha, onde se licenciou em 1971 e prestou provas de doutoramento em 1973 defendendo uma tese de História do Direito. Fundou dois lares para rapazes, Lar Beato Nuno, por onde passaram milhares de estudantes.
Pastoralmente, exerceu as mais variadas missões. Foi pároco em vários lugares, exerceu cargos em diversos organismos da Arquidiocese de Braga e em alguns de cariz civilista, como sucede com o Sporting Clube de Braga, onde teve a função de Presidente do Conselho Geral. Em 2002, o então vigário-geral da Arquidiocese de Braga e Deão apresentou a demissão do cargo ao Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, devido ao facto de ter atingido os 75 anos de idade. A sua saída da hierarquia da Arquidiocese seguiu-se a um período de alguma tensão com o Arcebispo por causa da colocação de uma estátua na rotunda de Monte de Arcos em Braga, proposta por um grupo de bracarenses. O prelado concordava com uma homenagem ao "Cónego" Melo, mas não com a colocação de uma estátua, embora respeitasse a decisão dos promotores.
Uma das suas últimas obras foi a da recuperação da Sé de Braga, na década de 1990, depois de ter organizado um congresso evocativo dos 900 anos da sagração daquele monumento, em 1989. Comendador de Ordem de Mérito, distinção concedida pelo Presidente da República, Mário Soares, era, ainda, Deão honorário de Santiago de Compostela. Eduardo Melo é ainda um dos poucos contemplados com a medalha de ouro da cidade de Braga.

Embora sendo figura polémica no meio bracarense e nacional o Cónego Eduardo Melo Peixoto foi também um dos homens da comunicação social bracarense, no caso era um dos sócios da extinta Radio e Televisão do Minho, a par de outros como João Gomes Oliveira, Candido Costa, entre outros. Marca de forma clara o pós 25 de Abril quer se goste ou não da sua acção.

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