23/05/2008

SERÁ QUE SABEM DO QUE FALAM ?

O Comunicado da PJ refere-se a"apreensão de substâncias, medicamentos, material destinado a auto-transfusões sanguíneas e instrumentos de uso clínico, porventura indiciadores da referida prática." Do que vi em exposição nas TV's percebi que existia grande número de seringas e tubos para uso intravenoso, tabletes de cápsulas coloridas, frascos com um líquido branco e uma centrifugadora de laboratório.
O Correio da Manhã, embalado com "o material destinado a auto-transfusão sanguínea", ontem dava notícia de ter sido encontrado "EPO" e "sacos com sangue congelado". Fiquei estarrecido. Mas surpreendido pelo facto de a PJ que é sempre tão sensacionalista nas apresentações à comunicação social do material apreendido não se ter referido ao "sangue congelado" e à "EPO", tanto mais que esses dois elementos, e só esses, fariam prova plena da culpa e do êxito televisivo policial.
Hoje o Correio da Manhã já não faz referência "aos sacos de sangue congelado" e apenas faz referência à "EPO". E, curiosamente, já vem dizer que os medicamentos que foram apreendidos afinal são de venda livre, não são proibidos e o seu uso não é sancionado se não ultrapassar certos limites de utilização.
Eu percebo que o Correio da Manhã, apesar do costumeiro nível rasteirinho do seu jornalismo, já esteja a aliviar a carga da notícia de ontem. É que aquela dos "sacos de sangue congelado"...

Saliento que "o material destinado a auto-transfusão sanguínea" só releva se efectivamente se tratar de sangue do próprio atleta. O que não foi mostrado nem noticiado pela PJ. Seringas, tubos, cateteres, frascos de soro fisiológico têm a explicação mais suave que pode haver. É que da mesma forma que as nossas crianças quando padecem de desidratação severa - por diarreias, gastroenterites, etc. - são sujeitas "a soro" por aplicação directa na veia de soro e sais hidratantes, também o ciclismo usa a hidratação venosa directa como a forma mais rápida de reposição de sais. Em especial nas provas em dias sucessivos em que a re-hidratação não pode ser por via digestiva sob pena de não se atingir em cada dia a reposição necessária. Essa prática é comum. E inóqua.

A centrifugadora, por seu lado, é um equipamento de que todos os departamentos médicos de equipas profissionais - seja de que modalidade fôr - sempre dispõem para medir o hematócrito dos atletas, que é uma medida respeitante à quantidade de glóbulos vermelhos. Recorde-se que no ciclismo, não é admitido à partida um ciclista com hematócrito superior a 50 %. Por outro lado, o controlo da evolução do hematócrito de cada atleta é dimensão essencial da planificação e desenvolvimento do treino. Qualquer departamento médico de desporto profissional ou controla o hematócrito de cada atleta ou é como se não existisse.

Ou seja, passado mais um dia, continuo sem perceber a dimensão do crime e começo a suspeitar que, quer a actuação policial ao falar de "material para auto-transfusão", quer a descrição jornalística que desse argumento conclusivo tem dado eco, não passam de exercícios de ignorância praticado por uns pacóvios que não percebem patavina da matéria.

Continuo à espera de algo que evidencie alguma culpa. Até agora, nada nesse sentido me foi apresentado sem que possa ser interpretado de forma exactamente ao contrário.

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