26/12/2008

Revista que explora 'culto ao corpo' gera polêmica no Líbano



Jasad já enfrenta pressão de grupos opositores


Uma revista que explora temas tabus na sociedade árabe chegou às bancas nesta segunda-feira no Líbano em meio a muita controvérsia.A revista intitulada Jasad (Corpo, em árabe) é uma das raras publicações a explorar temas eróticos no país. A capa da primeira edição mostra uma mulher nua envolta em um pano de seda.
A revista trimestral foi idealizada pela poeta e jornalista libanesa Joumana Haddad, e contará com colaboradores de vários países do mundo árabe como Egito, Marrocos, Síria, Territórios Palestinos e Arábia Saudita.
“A revista é um sonho antigo, uma extensão do meu trabalho como poeta, uma forma de me expressar”, disse Haddad, também editora de cultura do jornal diário An Nahar.
Ela defende a publicação como uma forma de tentar recuperar uma antiga tradição literária na língua árabe, que se perdeu pela "influência religiosa na vida diária da sociedade”.
"Escritores árabes produziram textos maravilhosos, e com conteúdos que exploravam o corpo, entre os séculos 10 e 13, como Mil e Uma Noites."
Restrições
Uma publicação como Jasad não passa despercebida em uma região conservadora como o mundo árabe, onde publicações sofrem restrições mesmo em países como o Líbano, considerado mais liberal em relação a outros.
Nas bancas de Beirute pode-se encontrar revistas e livros pornográficos, mas de origem estrangeira. A Jasad seria a primeira publicação verdadeiramente libanesa.
Antes mesmo de ser lançada, o projeto já sofreu oposição de alguns grupos.
Haddad disse que não apenas os muçulmanos, mas também os cristãos mais conservadores desaprovam sua revista. Muitos a aconselharam a não levar adiante seu projeto.
Recentemente, em uma feira de livros em Beirute, um pôster da revista foi arrancado por um indivíduo que acusou a imagem da capa de ser “proibida”.
“Inclusive amigos me falaram que eu deveria repensar o projeto, que poderia me trazer problemas. Confesso que comecei a ficar nervosa com esta atenção toda, mas não tenho medo, pois, felizmente, vivo num país mais livre como o Líbano”, salientou ela.
O nível de tolerância no mundo árabe varia dependendo do país. Mas, em geral, há repressão a idéias que quebrem os tabus sobre temas como virgindade, erotismo e homossexualidade.
Mas ano após ano, com a globalização e acesso à internet, governos da região vêm encontrando cada vez mais dificuldades em controlar a produção cultural que difere das normas pré-estabelecidas.
A revista contará com artigos, fotos, arte e ilustrações que falarão sobre o culto ao corpo, erotismo e sexo. Os autores assinarão os trabalhos usando seus nomes, e não com pseudônimos.
Haddad lançou a revista como forma de se expressar “No Líbano, a revista Jasad, com 200 páginas, será vendida em envelopes plásticos lacrados como “publicação adulta”. No exterior, ela será entregue para assinantes que pagarão 130 dólares por todas as quatro edições anuais.
De acordo com a jornalista, já há assinantes no Egito, Marrocos, Tunísia e até a Arábia Saudita, considerado o país mais conservador do mundo árabe.
“Tenho esperanças de que o projeto dará muito certo, tudo está sendo feito com muita paixão”, declarou Haddad, que começou a colocar em prática o projeto da revista há dois anos.
Empreendimento
O site da revista, que também vai mostrar seu conteúdo, contará com um fórum de discussão e que tentará estimular o livre debate sobre o corpo.
“Estou ciente que teremos muitas polêmicas, por isso vamos controlar os comentários no site. Sei que seremos ofendidos por aquelas pessoas mais fanáticas”.
Para realizar seu projeto pessoal, a poeta libanesa fundou sua própria editora e conseguiu um distribuidor que se comprometeu a não interferir no conteúdo.
O Ministério da Cultura autorizou a publicação sem nenhum problema, segundo Haddad. Mas para a revista se tornar realidade, ela investiu dinheiro do próprio bolso.
"Já estou negociando publicidade para manter o empreendimento, mas será uma relação aberta e honesta."
O logotipo do título da revista contém, inclusive, uma algema que representa a “prisão das pessoas em discutir o corpo”.
“Eu mesma fui criada de uma maneira tradicional, conservadora. Claro que respeito os hábitos e opiniões, mas quero fazer algo para mim e dar a chance para outros se expressarem”,
salientou.

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